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La Casa de Papel e por que a gente gosta de anti-heróis?

La Casa de Papel/Reprodução: Antena 3

Sucesso de crítica e publico, La Casa de Papel se tornou rapidamente um fenômeno da internet, no Brasil - graças a Netflix que já disponibilizou as duas partes, não foi diferente. É possível que na timeline de muitos tenham aparecido vários posts e fotos da série; como ainda não vi a série, não posso afirmar que é incrível ou ruim, mas claramente da pra falar sobre os personagens e sobre a afeição que foi criada nessas ladras e ladrões "boa pinta".

Pra falar sobre isso, antes vamos voltar alguns anos no tempo. Mais exatamente em 1999 com uma das séries mais elogiadas e premiadas da história da TV norte-americana; Família Soprano da HBO que talvez seja a responsável por essa nova leva de anti-heróis empáticos na TV e no cinema. O personagem principal da série é Tony Soprano (James Gandolfini) um mafioso no melhor estilo O Poderoso Chefão (na série os personagens fazem referencia ao clássico do cinema) que no meio de problemas familiares, com a máfia e de ansiedade, começa a se consultar com uma psicóloga e aos poucos vamos entendendo como funciona a mente de Tony, o que fez ele ser o que é e como ele reage à todo esse universo de crime e família. E o que antes era tratado na arte como "bom e mal, preto e branco", em Família Soprano se torna mais complexo, deixando todos os personagens em tom de cinza e com motivações e respostas mais humanas; que nos aproxima deles - mesmo que não concordemos com assassinatos e tráfico de drogas.

Família Soprano/Reprodução: HBO



God of War/Reprodução Sony Santa Monica Studios
De lá pra cá muitos outros anti-heróis roubaram os corações de muitos fãs por aí; não só na TV e no cinema, mas nos games também. Como o famoso Kratos da saga God of War do PlayStation - que embora não tenha uma motivação tão convincente quanto Tony Soprano ou Nairobi, anda consegue cativar muitas pessoas, desde sua voz icônica até suas exclusivas espadas; mesmo que o Fantasma de Esparta careça de uma motivação tão forte quanto outros personagens, fica difícil ficar contra um protagonista que jura vingança contra os deuses do Monte Olimpo da maneira mais sangrenta e catártica possível. Depois de sua história na Grécia antiga, Kratos vai para a mitologia nórdica no novo game God of War que será lançado para PS4 e PS4 Pro no dia 20 de abril de 2018 - leia mais.

Bom mas o que faz a gente gostar tanto desses personagens problemáticos? Será que somos tão "ruins quanto eles" ou simplesmente porque eles(as) são os protagonistas de seus produtos? Talvez o melhor exemplo para [tentar] explicar esse efeito causado por esses personagens é Walter White (Bryan Cranston), personagem principal de Breaking Bad - uma das séries mais elogiadas dos últimos anos. Na série o personagem começa como um professor de química falido e descontente com sua vida. Com dois filhos e trabalhando em dois empregos para sustentar sua família; eis que Walter White descobre que está com câncer já em estado avançado, vendo que ele não vai ficar com sua família muito tempo e que ele não pode deixa-los desamparados, o professor resolve entrar no tráfico de drogas - mais especificamente a metanfetamina. Com seu vasto conhecimento em química, logo o professor consegue arranjar dinheiro suficiente para que sua família possa viver bem; mas sabemos que ele não para por aí e logo o que era uma saída para ajudar a família se torna uma obsessão e uma demonstração de poder e de importância que Walter White nunca havia provado antes em sua vida. Durante as cinco temporadas da série acompanhamos a ascensão e derrocada do professor que assume a alcunha de Heisenberg, vemos o que fez ele escolher esse caminho e o que o mantém nele; e por mais que nem sempre concordamos com suas atitudes é muito compreensível e isso trás em nós questionamentos sobre nossas vidas e nossas escolhas. O anti-herói faz brotar todos os anjos e demônios que habitam nossas mentes e com Walter White essa ideia fica evidente.

Breaking Bad/Reprodução: AMC

Mais difícil que falar de Breaking Bad sem entrar em spoilers, é falar de La Casa de Papel sem ter assistido-a; porém já no primeiro momento a série chama atenção pela maneira que os personagens são tratados e como seus planos e suas visões de mundo afetam o roteiro, que brinca com o já conhecido modelo de história de assalto (heists) - que conta com o plano mirabolante, máscaras e a fuga sem deixar rastros. O que chama atenção na série são os nomes dos assaltantes - que assumem a identidade de cidades famosas, o que ajuda a entender as motivações e emoções destes. Assim como em Breaking Bad, o plano de fazer o grande roubo da casa da moeda parte de um pensamento que causa empatia nos espectadores; que acordos e reformas políticas no governo causaram um enriquecimento dos mais ricos enquanto o proletariado continua na m*rda. Fica fácil simpatizar com essa ideia nobre - que é facilmente remetida ao Robin Hood, porém assim como em nós, os demônios também afloram nesses personagens que começam a passear pelo cinza, não mais se tratando simplesmente de uma história de "roubar dos ricos para dar para os pobres". E ao mesmo tempo em que estes personagens são colocados cara a cara com seus demônios, nós na posição de espectador assumimos papel de cúmplice também; já que estamos junto com eles e torcemos pelo sucesso do plano. O anti-herói nesse ponto assume posição de nos fazer questionar nossos dogmas, ideologias e escolhas - eles nos fazem perceber que também não somos figuras tão simples assim e que em todo herói há vilania, e vice-versa.

Nos últimos anos as produções audiovisuais começaram a trabalhar muito mais com a ideia de anti-herói - em vista da dicotomia de "mocinho vs vilão" que já era mais conhecida do grande público, e não traduz bem o que realmente somos enquanto humanos. Desde produções mais antigas como Família Soprano, Breaking Bad, Mad Men ou a mais recente La Casa de Papel, elas nos fazem repensar o que é ser humano, e até onde vão nossas ideologias vs nossa necessidade de sobreviver. Se simpatizamos com eles ou se torcemos pela sua derrota - esta ultima opção que reflete o demônio que está em nós também. Muito além de ser apenas uma fuga pro já clichê "herói contra vilão", os anti-heróis trazem novas formas de questionar o mundo e até a própria estrutura de contar uma história - deixando-as mais verossímeis e/ou até mais ligadas a nós, do que queremos admitir.

[Atualizado 18/04/2018]
A Netflix confirmou nesta manhã a terceira parte de La Casa de Papel, com novos episódios em 2019. Desta vez a série será exclusiva do serviço de streaming. Confira o anúncio:
As duas primeiras partes de La Casa de Papel; todas as temporadas de Breaking Bad e Mad Men e a trilogia O Poderoso Chefão estão disponíveis na Netflix.

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